A Biografia Definitiva de Divaldo Pereira Franco
Divaldo Pereira Franco (Feira de Santana, 5 de maio de 1927 — Salvador, 13 de maio de 2025) foi um eminente professor, médium, escritor, orador e filantropo brasileiro. Amplamente considerado um dos maiores divulgadores da doutrina espírita em todos os tempos, recebeu as alcunhas de "Paulo de Tarso do Espiritismo" e "Semeador de Estrelas" — esta última dada por Chico Xavier, que dizia que Divaldo possuía "uma estrela na boca". Consagrou sua existência à caridade, à assistência social e à difusão de uma mensagem de paz e autoconhecimento, guiando-se pelo lema:
"Jamais deixe para amanhã o bem que pode fazer hoje".
Sua vida é tão inspiradora que frequentemente atrai a atenção de canais dedicados a histórias fascinantes e documentários, sendo um exemplo inesgotável de resiliência e amor ao próximo.
O Nascimento e as Primeiras Manifestações
Divaldo foi o caçula do casal Francisco Pereira Franco e Ana Alves Franco, que gerou um total de 13 filhos (cinco dos quais faleceram antes mesmo de Divaldo nascer). Sua concepção foi marcada por um diagnóstico precipitado: nos idos de 1926, um médico alertou Dona Ana, então com 44 anos, de que a sua gravidez não era uma simples "barriga d'água". O médico sugeriu o aborto, afirmando que, caso contrário, a criança nasceria anormal. Dona Ana contrariou a recomendação e seguiu com a gestação. O menino nasceu com saúde perfeita, mas logo surpreenderia a todos por sua paranormalidade.
As experiências mediúnicas começaram cedo. Aos quatro anos, Divaldo via e conversava com espíritos. Ele costumava brincar no quintal e subir em árvores com um menino indígena chamado Jaguaraçu. Em 1931, ocorreu um episódio marcante: uma senhora aproximou-se dele na sala e pediu que avisasse Dona Ana de que sua mãe, Maria Senhorinha, desejava falar-lhe. Como Dona Ana não conhecera a própria mãe — que faleceu de infecção puerperal logo após o parto —, ela duvidou e deu um puxão de orelha no menino.
Levado à casa da tia Edviges, que criara Dona Ana e vivia presa a um leito por paralisia, Divaldo descreveu a visão com o vocabulário de uma criança: uma mulher de olhos verdes, cabelos penteados para trás em coque, vestido branco de babados, mangas compridas, gola alta e um enfeite na cintura. Aos prantos, a tia confirmou que se tratava do camafeu com o qual a mãe havia sido sepultada.
Criado em um lar católico tradicional, as visões do menino não foram compreendidas. Ele chegou a sofrer punições físicas do pai e recriminações dos irmãos, sendo considerado portador de distúrbios mentais. Sacerdotes locais atribuíam as visões a influências demoníacas, submetendo-o a exorcismos. Aos 12 anos, exausto, Divaldo chegou a "brigar com Deus", questionando por que tinha que enfrentar aquilo se mantinha uma conduta reta, confessava e comungava.
Lutas, Provações e o Despertar Espírita
Divaldo enfrentou tragédias dolorosas na juventude. Sua irmã mais velha, Nair, de quem era muito próximo, tirou a própria vida aos 19 anos, em 1939, após desconfiar de uma traição do marido. O sofrimento do espírito da irmã acompanhou Divaldo por muito tempo. Anos depois, Nair reencarnou como filha de uma mulher extremamente pobre que buscou amparo na Mansão do Caminho. Com saúde frágil, a menina viveu até os nove anos sob os cuidados de Divaldo antes de desencarnar novamente. Ele utilizaria essa vivência em suas palestras para desmistificar a ilusão de que o suicídio encerra o sofrimento.
O médium também foi alvo de intensas perseguições espirituais. A partir dos sete anos, passou a ser atormentado por um espírito obsessor que ele chamava de "Máscara de Ferro", pois a entidade aparecia com o rosto coberto por uma máscara em chamas. Tratava-se de um religioso francês do século XVII que buscava vingança contra Divaldo por desentendimentos de uma vida passada (onde Divaldo teria provocado a interrupção da vida daquele homem). Essa inimizade só foi pacificada na fase adulta, quando Divaldo resgatou de uma lata de lixo um bebê abandonado, que era a exata reencarnação da mãe daquele espírito vingativo.
Outro marco traumático ocorreu após a morte repentina de seu irmão mais velho, José, vítima de um aneurisma. Durante o velório, Divaldo sofreu um choque emocional paralisante e perdeu o movimento das pernas, ficando acamado por cerca de seis meses. A medicina convencional falhou em diagnosticá-lo, chegando a sugerir tratamentos de choque.
A cura ocorreu em 5 de dezembro de 1944. A médium Ana Ribeiro Borges (Dona Naná), levada à residência pela prima de Divaldo, Clarice, identificou que o espírito perturbado de José estava ligado ao irmão, sem aceitar a própria morte. Com orações e passes, Dona Naná curou a paralisia do rapaz e identificou a sua forte mediunidade, encaminhando-o ao Centro Espírita Jesus de Nazaré.
A Construção de um Legado: A Mansão do Caminho
Em 1943, Divaldo formou-se professor primário pela Escola Normal Rural de Feira de Santana. Mudou-se para Salvador em 1945 e, no dia 5 de dezembro daquele ano, ingressou por concurso no antigo Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPASE) como escriturário, onde trabalhou até se aposentar em 1980.
Já espírita convicto, fundou o Centro Espírita Caminho da Redenção em 7 de setembro de 1947. Inspirado por um sonho no qual se via acolhendo inúmeras crianças, Divaldo uniu-se ao seu fiel amigo Nilson de Souza Pereira (nascido em 26 de outubro de 1924 e falecido em 21 de novembro de 2013). Juntos, em 15 de agosto de 1952, fundaram a Mansão do Caminho.
O que começou como um orfanato tradicional evoluiu para um modelo pioneiro de lares substitutos na América Latina. Hoje, a Mansão do Caminho é um admirável complexo filantrópico localizado no bairro de Pau da Lima, em Salvador. Com 83.000 metros quadrados e 43 edificações construídas arduamente ("na picareta e no amor"), a instituição atende cerca de 6.000 pessoas diariamente.
Ao longo das décadas, a obra tirou mais de 160 mil pessoas da miséria absoluta. Não existe nenhum filtro religioso para o atendimento; a imensa maioria dos assistidos pertence a outras religiões. O complexo administra órgãos vitais, entre os quais:
- A Manjedoura: creche para bebês de 2 meses a 3 anos.
- Educação: Escola Jesus Cristo (1950), Escola Allan Kardec (1965), Escola de Informática e Escola de Educação Infantil Alvorada Nova (fundada em 1971 como Esperança).
- Evangelização: Escola Nise Moacyr (infantil) e Juventude Espírita Nina Arueira.
- Saúde e Assistência: Caravana Auta de Souza (para idosos e inválidos), Casa da Cordialidade, Centro de Saúde J. Carneiro de Campos e o Grupo Lygia Banhos.
- Maternidade Mariana: Um centro de parto natural idealizado após Divaldo socorrer várias mulheres dando à luz nas ruas de barro da região. A maternidade já realizou mais de 1.500 partos humanizados.
- Livraria e Gráfica: Livraria Espírita Alvorada Editora (LEAL).
Embora não tenha tido filhos biológicos, Divaldo assumiu a guarda e educou mais de 600 filhos adotivos — que se tornaram professores, contadores, médicos e psicólogos —, possuindo mais de 200 netos e bisnetos. A obra é mantida primariamente pelos direitos autorais dos livros psicografados por Divaldo, além de convênios governamentais e doações.
A Monumental Obra Literária
Divaldo possuía faculdades de efeitos físicos e intelectuais, mas destacou-se mundialmente pela psicografia. Suas primeiras mensagens foram queimadas por instrução espiritual, tratando-se apenas de exercícios. Em 1949, escreveu a sua primeira mensagem oficial, intitulada "Na subtração e na soma", ditada pelo espírito Marco Prisco.
Ao longo de sua vida, publicou mais de 260 obras, com impressionantes vendas estimadas entre 8 a 10 milhões de exemplares, traduzidos para 17 idiomas (incluindo alemão, castelhano, francês, italiano, esperanto, polonês, tcheco e braille). Rigorosamente todos os direitos autorais foram doados em cartório para instituições filantrópicas.
A literatura produzida abrange sociologia, história, romances, filosofia, psiquiatria e obras infantis, englobando 211 autores espirituais. Entre os mais notáveis, destacam-se:
- Amélia Rodrigues: narradora poética de grandes momentos do Cristianismo Primitivo.
- Victor Hugo: detentor de um estilo literário de rara dramaticidade.
- Vianna de Carvalho: um dos maiores tribunos do Espiritismo.
- Manoel Philomeno de Miranda: focado nos estudos de obsessão, desobsessão e trabalhos mediúnicos.
- Marco Prisco: entidade que viveu no tempo de Jesus.
- Rabindranath Tagore: poeta indiano e Prêmio Nobel de Literatura de 1913, autor do livro "Filigranas de Luz".
A Mentora Joanna de Ângelis
A grande orientadora de sua vasta produção foi Joanna de Ângelis. Por anos, ela se apresentou apenas como "um espírito amigo". Quando Divaldo questionou quem era seu guia, ela explicou que o guia da humanidade era Jesus, e que nomes importavam menos que a amizade verdadeira. Posteriormente, revelou ter sido Soror Joana Angélica de Jesus em sua última encarnação, freira morta a golpes de baioneta na porta do Convento da Lapa para impedir que soldados embriagados invadissem o recinto e desonrassem as monjas durante as lutas pela Independência da Bahia.
Joana ditou mais de 70 livros para Divaldo. O primeiro impresso foi "Messe de Amor" (1964), contendo 60 mensagens consoladoras. Em 1987, lançou "A Veneranda Joanna de Ângelis", contendo informações biográficas do médium e de sua mentora.
O grande marco de Joanna de Ângelis foi a criação da Série Psicológica. Unindo a doutrina espírita aos estudos sobre a psique humana de teóricos como Carl Jung, a mentora ditou obras monumentais sobre autoconhecimento e psicologia transpessoal. Destacam-se "Autodescobrimento" (1995), "Triunfo Pessoal" (2002) e "Conflitos Existenciais" (2005) — este último abordando as origens dos vazios emocionais da humanidade moderna e o escapismo através de relacionamentos efêmeros na internet.
O Orador pelo Mundo
A partir de 1947, Divaldo tornou-se o maior conferencista espírita da história. Passando em média 230 dias por ano na estrada, realizou mais de 20.000 palestras e seminários em cerca de 2.500 cidades distribuídas por 71 países nos cinco continentes.
O alcance geográfico do orador baiano estabeleceu marcos históricos:
- América: Mais de 10.000 palestras em 18 países e 119 cidades. Concedeu cerca de 180 entrevistas, palestrando três vezes na Voz da América e em mais de 12 universidades.
- Europa: Mais de 500 palestras em 20 países e 80 cidades, discursando em mais de 10 universidades europeias. Destacou-se pelo apoio ao movimento espírita espanhol e português durante os regimes ditatoriais daqueles países.
- África: Mais de 150 palestras em 5 países e 25 cidades.
- Ásia: Mais de 12 palestras em 5 países e 10 cidades.
- ONU: Fez pronunciamentos três vezes no departamento de Washington, duas vezes no departamento de Viena, e em 31 de agosto de 2000, participou do Primeiro Encontro Mundial da Paz.
Relacionamentos, Visão de Mundo e Reconhecimento
A figura afável de Divaldo cruzou com lideranças de diversas áreas. Tinha grande afeto pela freira católica Irmã Dulce. Certa vez, penalizado com a modesta cadeira de madeira que ela utilizava, Divaldo ofereceu-lhe uma cama confortável. Pouco tempo depois, descobriu que Irmã Dulce havia doado a cama para os pacientes mais graves do hospital e voltado a usar sua velha cadeira.
A amizade com Chico Xavier foi notória e repleta de admiração mútua. Embora tenham enfrentado um período de distanciamento provocado por seguidores extremados de Chico (que acusaram infundadamente Divaldo de plágio), os dois maiores expoentes da mediunidade brasileira eventualmente se reaproximaram. Após a morte do mineiro, Divaldo fez questão de visitar os seguidores de Chico para consolidar a união.
Em uma entrevista marcante ao Fantástico, Divaldo permitiu, de forma inédita, a gravação em vídeo de uma sessão mediúnica completa, onde psicografou mensagens de Joanna de Ângelis e Tagore sob as luzes de uma lâmpada verde, provando que a vaidade e o ocultismo não faziam parte de sua rotina.
Ele sobreviveu a intensos desafios físicos. Há cerca de três décadas, sofreu uma parada cardíaca com experiência de quase morte, onde se viu fora do corpo. Após o retorno e o subsequente infarto, um cardiologista previu que ele viveria no máximo um mês e o proibiu de realizar esforços ou falar excessivamente. Com sua típica tenacidade baiana, Divaldo seguiu discursando pelo mundo e trabalhando intensamente por mais trinta anos.
Seu trabalho pacifista rendeu-lhe quase 600 homenagens, destacando-se:
- Título de Embaixador da Paz no Mundo (Suíça, 2005).
- Doutor Honoris Causa em Humanidades pelas universidades de Concórdia (Canadá, 1991), UFBA (2002), Santa Cecília (2016), UFPI (2018) e UFPE (2019).
- Admissão na Ordem do Mérito Militar (como Cavaleiro em 1997 e Comendador em 2020).
- Comenda da Paz Chico Xavier (2013).
A sua rotina de entrevistas e ensinamentos rendeu o programa "Encontro com Divaldo" no site da Mansão do Caminho (2006-2007) e impulsionou a cultura nacional através do livro não-espírita da jornalista Ana Landi (2015) e do sucesso cinematográfico "Divaldo – O Mensageiro da Paz" (2019).
Despedida e Repercussão
Divaldo Pereira Franco faleceu na noite do dia 13 de maio de 2025, às 21h45, em sua residência na sede da Mansão do Caminho. O médium, aos 98 anos, encontrava-se em regime de home care, vitimado por falência múltipla de órgãos decorrente de um câncer de bexiga contra o qual lutava desde novembro de 2024. Curiosamente, partiu no mesmo mês em que nasceu.
A sua passagem comoveu o Brasil. O plenário do Senado Federal realizou um minuto de silêncio; a Assembleia Legislativa da Bahia e a prefeitura de Feira de Santana decretaram três dias de luto oficial. Instituições como o Esporte Clube Bahia emitiram notas de pesar.
Autoridades e artistas manifestaram publicamente a dor da perda e a grandiosidade do seu trabalho. A Ministra da Cultura, Margareth Menezes, exaltou a intensa dedicação de Divaldo ao próximo. O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, comparou o seu impacto ao de lideranças como o Papa Francisco e Pepe Mujica. O prefeito Bruno Reis e o ex-prefeito ACM Neto ressaltaram o legado irreparável de respeito e tolerância. Figuras da música, como Ivete Sangalo e Carlinhos Brown, publicaram mensagens enaltecendo a resiliência, a doçura e a capacidade de Divaldo de aproximar a humanidade da paz.
Atendendo aos pedidos de Divaldo, as homenagens póstumas foram breves. O velório, realizado no ginásio da Mansão do Caminho no dia 14 de maio, manteve o caixão fechado e não contou com desfiles em carro aberto. Na manhã do dia 15 de maio, perante um público emocionado de cerca de 500 pessoas e após um tocante discurso do presidente da Federação Espírita Brasileira, Jorge Godinho, o corpo foi sepultado no Cemitério Bosque da Paz.
A presença física de Divaldo chegou ao fim, mas ele deixa como legado definitivo a imensa luz de seus ensinamentos em milhares de corações e o abrigo incessante fornecido pelas paredes repletas de solidariedade da Mansão do Caminho.






